JOTA Principal | Flávio Bolsonaro foge à luta e deixa vácuo de poder na direita

  • Post publicado:
  • Categoria do post:JOTA
Esta é a versão online da newsletter JOTA Principal. Quer receber as próximas edições e acompanhar os principais temas do momento? Cadastre-se gratuitamente! Depois de receber 59 milhões de votos e prometer liderar a oposição no Brasil, o senador Flávio Bolsonaro fugiu ontem (27) para os Estados Unidos. A decisão pegou aliados de surpresa e tem desdobramentos ainda incertos — tanto na articulação do PL e da oposição ao governo Lula, como na relação entre Brasil e Estados Unidos, que não reconheceu a lisura da reeleição do petista. Valdemar Costa Neto publicou foto ao lado de Michelle Bolsonaro. Aliados de Tarcísio de Freitas consideram que a fatura dele com o clã foi paga nesta eleição. A lembrança de Flávio se esvai entre aliados na velocidade em que o avião se aproxima da Flórida. Ao mesmo tempo, o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, determinou que a Polícia Federal investigue a possível interferência estrangeira nas eleições a favor do candidato derrotado. Paula Bonelli colaborou nesta edição. Boa leitura. O PONTO CENTRAL 1. Verás que um filho teu foge à luta A decisão de Flávio Bolsonaro enfraquece o controle da família e cria um vácuo de comando no campo político que pretende fazer contraponto ao governo Lula, Marianna Holanda, Flávia Maia, Fabio MuraKawa e Vivian Oswald analisam no JOTA PRO Poder. Por que importa: Esta pode ser uma janela de oportunidade para a direita sair da sombra do clã, consequência que até aliados do senador reconhecem. O crescimento do PL nos últimos anos e na eleição deste ano para o Legislativo deixou flagrante como a ultradireita engoliu partidos da direita tradicional. O fenômeno não é exclusividade do Brasil e acontece em países como o Chile, mas o vazio deixado pelo clã pode ser a janela para o PL ir além do bolsonarismo. O presidente da sigla, Valdemar Costa Neto, pode acelerar esse processo: ele publicou uma foto com a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro na tarde de ontem (27). O dirigente sempre foi um dos defensores de que a senadora eleita integrasse uma chapa presidencial. Ela carrega o aval do sobrenome, mas sua família na política é a senadora Damares Alves (Republicanos-DF) e a governadora reeleita do Distrito Federal, Celina Leão (PP). Isso não significa que Michelle conseguirá unificar o bolsonarismo; no entanto, já é um sinal de Valdemar de que a disputa pela vaga começou. Todos os que tentaram medir forças com a família Bolsonaro saíram com a pecha de traidores e perderam capital político. O governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) deixou de ser o escolhido para a disputa ao Planalto porque o clã só confia no clã — mas agora parece ter ficado sem opções. Tarcísio e empenhou no segundo turno na campanha do aliado, algo que muitos bolsonaristas duvidavam que pudesse ocorrer. Leia mais na nota 2. Ele também divulgou um vídeo nas redes dizendo que a eleição acabou, mas a publicação parece campanha antecipada para a próxima. Se assim for, talvez tenha de avaliar uma mudança de sigla, porque dificilmente o PL aceitaria não lançar candidato à Presidência, sendo o maior partido de direita do país. Outro nome de olho na sucessão do campo político é Nikolas Ferreira (PL-MG), campeão de votos, mas cuja idade só permite entrar na disputa pelo Planalto a partir de 2034. Do ponto de vista programático, o senador Rogério Marinho (PL) tende a ganhar protagonismo na definição dos rumos do partido e na articulação da agenda da oposição. A decisão de Flávio pegou de surpresa aliados do senador, que oscilam entre decepção e compreensão. No fim da tarde de segunda (26), ele prometeu liderar a oposição, e a expectativa era de que assumisse um cargo no partido a partir do ano que vem, já que ficaria sem mandato. No mesmo vídeo, contou da determinação de Alexandre de Moraes para que entregasse seus passaportes até as 11h de ontem (27) — decisão que descumpriu. A possibilidade de o senador deixar o país já era aventada por interlocutores durante toda a campanha, caso perdesse a disputa. Segundo relatos, Jair Bolsonaro apoiou a decisão do filho de deixar o país, por considerar que a família é alvo de perseguição política no Brasil. No Supremo Tribunal Federal, alguns ministros preferiram não comentar sobre a fuga. Outros disseram que a fuga é um desrespeito aos votos recebidos e lembraram que ela ocorreu após as movimentações na investigação conduzida por Alexandre de Moraes, e não naquela sob responsabilidade de André Mendonça. Ainda não está claro de quais informações Moraes dispunha para acelerar uma decisão nesse sentido. O magistrado não tirou o sigilo de sua decisão. 👀 O que observar: Em outra frente, o governo Lula acha que ainda não é possível avaliar o potencial impacto da fuga nas relações com os Estados Unidos, diante do silêncio do senador. Dizem não saber se se trata efetivamente de uma fuga ou se ele pretende voltar ao Brasil. Eduardo Bolsonaro tem relação próxima com a administração de Donald Trump e com o secretário de Estado, Marco Rubio. O governo americano, assim como o argentino, não reconheceu a vitória de Lula. 🔖 Leia também: Flávio Bolsonaro fugiu, mas é foragido da Justiça? UMA MENSAGEM DO JOTA Reforma tributária: os próximos passos depois das eleições A reeleição de Lula (PT) indica continuidade da reforma tributária, mas o cenário ainda traz incertezas, em grande parte pela composição do Congresso a partir de 2027. Alíquotas, regimes diferenciados, implementação do split payment e funcionamento do IBS e da CBS seguem em aberto. Para antecipar os próximos passos da reforma após as eleições, o JOTA PRO Tributos realiza um webinar gratuito e exclusivo para empresas na sexta-feira da semana que vem, dia 6/11, às 10h, com Bárbara Mengardo e a equipe de analistas do JOTA PRO. A pauta cobre o impacto das eleições no andamento das regulamentações, as pautas do STF e do STJ e os julgamentos do Carf que antecipam a rotina da área tributária. As vagas são limitadas para empresas e sujeitas à aprovação. Faça sua inscrição aqui. 2. Nota fiscal paulista O governador reeleito de São Paulo, Tarcísio de Freitas, em evento da campanha de Flávio Bolsonaro / Crédito: Charles Vieira/Divulgação Aliados de Tarcísio de Freitas avaliam que ele “zerou o jogo” com a família Bolsonaro ao apoiar Flávio em 2026, Beto Bombig analisa no JOTA. Quitada a dívida, o governador reeleito de São Paulo mira agora 2028 e a sucessão de Lula, em 2030. Tarcísio mergulhou na campanha de Flávio no fim do primeiro turno, organizando eventos, gravando inserções e ajudando até na preparação para o debate da Globo. No segundo turno, Flávio obteve 53,8% dos votos válidos no estado paulista, em desempenho similar ao registrado no Rio de Janeiro. Aliados de Tarcísio argumentam que o resultado final não foi um fiasco, dada a virada surpreendente de Lula em todo o país. 🕵️ Nos bastidores: Embora articulasse nos bastidores para disputar a Presidência este ano, Tarcísio recuou após Jair Bolsonaro escolher Flávio. Agora, o governador manterá a lealdade a Bolsonaro, se sentindo livre para projetar sua candidatura ao Planalto em quatro anos, sem rupturas. Com a derrota de Flávio, esfriou a negociação para que Tarcísio troque o Republicanos pelo PL. Ele focará em manter a ampla aliança de centro-direita que sustentou sua reeleição no estado e isolou o PT. Michelle Bolsonaro é vista tanto como uma vice ideal quanto como adversária em potencial ao Planalto. 3. Interesses subjacentes O ministro Flávio Dino / Crédito: Gustavo Moreno/STF Flávio Dino determinou ontem (27) que a Polícia Federal abra um inquérito para investigar possível interferência estrangeira nas eleições a favor de Flávio Bolsonaro, Flávia Maia registra no JOTA. O ministro chama atenção para uma suposta instrumentalização de redes sociais e financiamento estrangeiro. Dino também quer esclarecer o possível vínculo entre apoio eleitoral e o interesse econômico de agentes estrangeiros nas terras raras e nos minerais críticos brasileiros. Segundo o ministro, a investigação deve tramitar sob a supervisão do Supremo, diante da possível participação de membros do Congresso na investigação. O ministro determina que a Polícia Federal investigue: as tratativas entre a Rockbridge e Tallis Gomes e Pedro Sang; quem pagou e contratou a publicidade dos perfis estrangeiros, com origem dos recursos e eventual participação de pessoas no Brasil; eventual relação entre o financiamento político e os interesses em terras raras e minerais críticos; assimetrias dolosas e manipulações algorítmicas por empresas donas de plataformas. 4. O início do fim O presidente do Supremo, ministro Edson Fachin / Crédito: Antonio Augusto/STF O presidente do Supremo Tribunal Federal, Edson Fachin, arquivou três investigações relacionadas ao inquérito das fake news, Flávia Maia escreve no JOTA. Uma envolve o pastor Silas Malafaia e a outra, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro, ambos suspeitos de coação na ação da tentativa de golpe pela qual Jair Bolsonaro foi condenado. O magistrado também extinguiu a punibilidade do jornalista Guilherme Fiuza pelas acusações de incitação ao crime e abolição violenta do Estado de Direito. A decisão sobre Malafaia e Fiuza atendeu a pedido da PGR, que apontou falta de provas. Por que importa: São os primeiros arquivamentos determinados por Fachin desde que assumiu a condução do inquérito das fake news, após a saída do ministro Alexandre de Moraes da relatoria. Ele tem demonstrado interesse em encerrar a investigação. 5. Grande acordo O presidente da Câmara, Hugo Motta, cumprimenta Lula no dia da promulgação da PEC pelo fim da escala 6×1 / Crédito: Kayo Magalhães/Câmara dos Deputados O PT oficializou ontem (27) o apoio à reeleição do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), Mariah Aquino escreve no JOTA PRO Poder. A federação PT-PC do B-PV elegeu 88 deputados para a próxima legislatura, a segunda maior bancada. A federação da qual o PT faz parte junto ao PC do B e ao PV decidiu se unir ao bloco de partidos de centro para, de acordo com o líder Pedro Uczai (PT-SC), avançar com as pautas de interesse do governo e barrar as pautas da extrema-direita. Por que importa: Motta se movimentou para reeditar o “blocão” de partidos que o apoiaram na eleição anterior e garantir mais um mandato à frente da Câmara. O objetivo também passa por isolar o PL, que elegeu 121 deputados para a próxima legislatura, maior bancada. Com os apoios confirmados do PT-PCdoB-PV, PSD, federação União-PP, Republicanos, MDB, Podemos, PSB, PDT, PSDB-Cidadania e Solidariedade-PRD, Motta soma cerca de 360 votos. A eleição é realizada em 1º de fevereiro, a cada dois anos. 6. Gimme fuel, gimme fire Fila de caminhões na marginal Pinheiros, em São Paulo / Crédito: Felipe Rau/Estadão Conteúdo O governo Lula renovou por um mês a subvenção ao diesel para reduzir o preço do combustível, Fábio Pupo informa no JOTA. Com isso, o subsídio de R$ 2,12 por litro de diesel será mantido. 🛢️ Panorama: Essa é a primeira prorrogação do subsídio aos combustíveis após o segundo turno de 2026, amparada pela medida provisória 1.391/26. A subvenção anterior de mesmo valor havia expirado na segunda (26). O governo deu sinais de que manteria o auxílio após as eleições, com perspectiva de continuidade em 2027. “Se o Brent continuar em um patamar muito elevado e a gente seguir percebendo que a gente vai ter recurso adicional, é sim possível [continuar com subsídios]”, afirmou o ministro Dario Durigan na semana passada. “E acho que essa deve ser a proposta do presidente, manter essa ajuda para suavizar. Não é para controlar preço, tabelar preço, mas é para, de algum modo, evitar que a inflação no país estoure e prejudique o prato de comida”, completou.